Lawrence W. Reed: Venezuela expõe à América Latina o quão destrutivo é o socialismo

A liberdade na América Latina tem sido ameaçada incessantemente ao longo da história. De muitas formas, aqueles que chegaram ao poder sentiram a onipotência acima do individual para decidir e governar em nome do “povo”: esse ser intangível mas onipresente em todos os discursos populistas.

Tivemos a honra de conversar com Lawrence W. Reed, presidente da Foundation for Economic Education (FEE). Podemos descrevê-lo em poucas palavras como um incansável defensor da liberdade.

Por que você defende as ideias de liberdade?

Meus motivos são numerosos, e os mencionarei aqui sem uma ordem específica: a liberdade é tão importante que acredito que ninguém pode ser plenamente humano sem ela. Cada um de nós é um indivíduo único que deve poder fazer suas próprias escolhas para ser quem é, dentro dos limites, é claro, de permitir a mesma liberdade para os outros. Se você não tem liberdade, então significa que você não está realmente vivendo sua própria vida; você está sendo obrigado a viver a vida de outra pessoa.

A liberdade é uma condição indispensável para todas as coisas maravilhosas que tornam a vida digna de ser vivida, como o amor, a realização, a felicidade, a família, a música, a arte, a literatura, etc. E está constantemente sob ataque de pessoas más, ideias ruins e até mesmo de pessoas bem intencionadas com más ideias. Portanto, aqueles de nós que acreditamos nela apaixonadamente devemos falar em sua defesa e às vezes dedicar toda a vida a isso, ou ela estará perdida para gerações inteiras.

Não consigo imaginar a vida sem liberdade, então fico feliz por defendê-la. Posso dizer também que gosto de trabalhar pela liberdade; adoro o trabalho porque amo a mensagem e o que tudo isso significa para a humanidade.

Quais foram os principais desafios que você enfrentou ao longo desse caminho?

Eu não sou uma pessoa naturalmente gregária. À medida que crescia, fui me tornando muito tímido. Até hoje, mesmo interagindo com o público constantemente e discursando para um público de centenas e, às vezes, até milhares de pessoas, eu ainda tenho uma preferência natural pela tranquilidade e a solidão. Então, sempre tive que superar essa timidez até certo ponto para ser um comunicador efetivo.

Outros desafios mais óbvios são a natureza da persuasão, superando os argumentos e as emoções daqueles que se opõem à liberdade. Por experiência, aprendi muito sobre como responder a argumentos contrários, mas muitas vezes eu pensei: “Por que não pensei nisso ou naquilo?”

Outro conjunto de desafios emergiu da criação de programas e organizações para promover a liberdade, primeiro como professor universitário e, em seguida, durante os últimos 30 anos, como presidente de três grupos de pesquisa em três estados diferentes. Por meu papel administrativo em todas essas organizações, incluindo os últimos nove anos na FEE, tive que fazer muito mais do que simplesmente escrever e fazer discursos sobre liberdade. Eu também tive de organizar, planejar estrategicamente, contratar e despedir pessoas, delegar responsabilidades, arrecadar fundos e construir relacionamentos.

Encontramos desafios diariamente, grandes e pequenos, com as organizações de gerenciamento. Mas acredito firmemente que esses desafios são melhor enfrentados quando se mantém um caráter forte e dividindo as responsabilidades com outras pessoas boas.

Ao longo dos anos, você notou que o totalitarismo oferece algum tipo de bem-estar ao indivíduo?

Sim, todas as formas de estatismo, seja do tipo do Estado do bem-estar social ou dos tipos totalitários mais duros, eles oferecem coisas às pessoas que às vezes elas acham difícil resistir. Geralmente é uma forma de segurança, pelo menos no curto prazo: segurança contra um inimigo estrangeiro ou contra alguém em sua própria casa, segurança contra ter que cuidar de si mesmo, segurança contra todos os tipos de problemas reais ou imaginários.

O que devo apontar e explicar do que advogamos da liberdade é que quanto mais se depende do Estado, menos seguro se fica. A concentração do poder nas mãos do governo nos torna vulneráveis ao abuso desse poder, bem como a todas as muitas coisas perversas que o um governo obeso faz, como a acumulação de dívidas, o gasto do dinheiro de outras pessoas para comprar votos e a falência da nação. Então, quando o Estado lhe dá algo, você deve estar ciente de que esse dinheiro vem à custa de outra pessoa junto com uma grande quantidade de desperdício e fraude ao longo do caminho, e que você está colocando seu futuro e o de seus filhos precisamente nas mãos erradas.

Consideremos o caso da América Latina, onde a liberdade é ameaçada de muitas maneiras diferentes. O que levou à aceitação do socialismo nesta parte do continente?

Várias formas de “teologia da libertação” tiveram um impacto sobre a liberdade ao longo dos anos em grande parte da América Latina. Como cristão e como libertário, acredito firmemente que (o socialismo e o cristianismo são incompatíveis), mas, infelizmente, muitos sacerdotes, padres, teólogos e professores da América Latina têm ensinado erroneamente o contrário.

Repressão do governo já fez 113 vítimas fatais em quatro meses (JUAN BARRETO/AFP/Getty Images)
Repressão do governo já fez 113 vítimas fatais em quatro meses (JUAN BARRETO/AFP/Getty Images)

Outro fator é o ressentimento contra as frequentes intervenções dos Estados Unidos na América Latina. Na maioria dos casos, simpatizo com esse sentimento, mas, infelizmente, isso tem alimentado uma reação contra o que muitos latinoamericanos vêem como capitalismo ianque. Mas a posição mais sensata é ser anti-intervencionismo e pró-capitalismo, especialmente se você valoriza a independência e uma economia próspera. Pode-se ver claramente como o regime socialista venezuelano, por exemplo, usa o argumento de “imperialismo ianque” para permanecer no poder e justificar seu socialismo desastroso.

Finalmente, o fato de a educação estar tão completamente monopolizada pelo governo em grande parte da América Latina é mais uma razão para a simpatia com o socialismo. O governo nunca ensinará a liberdade. É de seu próprio interesse deseducar seu povo e fazê-lo pensar que devem ser dependentes de políticos ao invés de si mesmos.

No entanto, tenho esperanças quanto ao futuro da América Latina. Eu acho que os latinoamericanos e o mundo em geral estão recebendo bons esclarecimentos sobre a estupidez destrutiva do socialismo; basta ver o que está acontecendo na Venezuela no momento. Espero que o que está acontecendo lá provoque uma reação contra o socialismo em todos os lugares.

Vamos falar um pouco sobre o livro The Fatal Conceit, de Friedrich Hayek. Em sua obra-prima, Hayek nos adverte sobre as graves consequências, em todas as formas de socialismo, dessa ideia fracassada de implementar uma ordem artificial: um senso de planejamento que vai além das necessidades do indivíduo. Sob esta premissa, podemos então dizer que o socialismo é e sempre foi um erro lógico-intelectual?

Sim, de fato, certamente podemos dizer isso. A crítica de Hayek ao socialismo como fatalmente viciado a uma “reivindicação do conhecimento” é universal e se aplica ao passado, ao presente e ao futuro. É uma observação enraizada na própria essência do conhecimento e na própria natureza dos indivíduos. Nada vai mudar isso. Quanto mais cedo as pessoas a superarem, melhor, para que possamos continuar a viver nossas próprias vidas em paz.

É impossível não falar da Venezuela: um verdadeiro paraíso na América Latina. O país com as maiores reservas de petróleo do mundo. Um país que costumava ser livre e próspero e que proporcionou durante décadas, de todas as formas possíveis, condições de desenvolvimento únicas para seus cidadãos. Mas a Venezuela não é mais a mesma. Como você acha que este paraíso foi destruído?

“Nada de bom em longo prazo pode vir de ideias que são inerentemente ruins, não importa como elas estejam maquiadas para parecer atraentes”

A Venezuela é uma triste evidência do terrível poder das más ideias. Nada de bom em longo prazo pode vir de ideias que são inerentemente ruins, não importa como elas estejam maquiadas para parecer atraentes às pessoas.

Recorde como Chávez e Maduro venderam o socialismo aos venezuelanos: eles sempre estavam fazendo discursos irritados e ressentidos, pedindo inveja, roubo e ódio. A maneira pela qual iriam cumprir suas promessas implicava a concentração de poder nas mãos do Estado, a qual é uma combinação fatal.

Muitos venezuelanos estavam presos nessa ideia porque lhes faltava personalidade ou porque permitiram que seu caráter se corrompesse. Eles foram comprados e pagos com falsas promessas do Estado e com a riqueza redistribuída. Pode ter funcionado em curto prazo, mas o socialismo sempre destrói a riqueza material e o espírito humano em longo prazo. Bem, o ‘longo prazo’ já está aqui, e os benefícios de curto prazo de alguns anos atrás desapareceram. O mal gera o mal, mais cedo ou mais tarde.

Eu creio que um ponto importante a mencionar é o caso do Equador. Eu sou equatoriano e cresci em uma nação que perdeu território e soberania. Em 2006 veio Rafael Correa, com uma receita socialista que convulsionou uma nação inteira. Hoje, 11 anos depois, os equatorianos se encontraram em um ponto sem volta. Perdemos talvez a última chance de derrotar uma ditadura. A liberdade ganhou nas eleições presidenciais de 2017, mas não no Conselho Nacional Eleitoral, também controlado pelo governo de Correa. Hoje sabemos que teremos mais anos de socialismo no Equador. Como os equatorianos podem reivindicar a liberdade, quando, aparentemente, todos os vestígios de liberdade desapareceram em um país onde o Estado controla quase tudo?

Nunca desista. Em termos do que você sabe estar certo e pelo que vale a pena lutar, independentemente das perspectivas de sucesso. Se estiver correto, você deve lutar por isso. Isso é o que as pessoas de bom caráter fazem. Talvez você tenha que lutar de forma diferente e mais inteligente, ou talvez tenha até que lutar fora do país. Mas, no entanto, você luta. Não significa necessariamente combater no sentido físico, embora às vezes seja necessário. Em vez disso, eu me refiro à batalha intelectual das ideias.

Desde os tempos de Chávez, as milícias atacam e sequestram manifestantes opositores (Reprodução)
Desde os tempos de Chávez, as milícias atacam e sequestram manifestantes opositores (Reprodução)

Muitos momentos importantes da história ocorreram de forma inesperada e rápida, e depois, após uma reflexão, é óbvio que eles aconteceram porque, mesmo quando as perspectivas de sucesso eram sombrias, as pessoas boas nunca desistiram. Quão terrível seria chegar ao fim de seus dias, olhar para trás na vida e ter que admitir que você desistiu das coisas mais queridas que você sempre soube que eram certas e boas?

Para finalizar, me atrevo a pedir em nome de todos os jovens que estão lutando em suas próprias trincheiras pela causa da liberdade: o que nos aconselha nesta jornada, que sem dúvida durará o resto dos nossos dias?

Lembre-se de que a jornada pela liberdade sempre esteve conosco. O mundo sempre foi afligido por pessoas ruins e ideias ruins. Nesse sentido, nossa jornada não é nova. Tem muitos séculos de Antiguidade, e milhões lutaram pelo nosso lado. Então não devemos desistir porque acreditamos que somos desafortunados. Não, a batalha pela liberdade é uma batalha infinita, e a pior coisa que podemos fazer é deixar que as más ideias ganhem porque não tivemos a coragem ou o caráter para resistir. Não importa o que aconteça, você vai querer chegar no final dos seus dias e dizer que fez tudo o que pôde, que você deu tudo de si.

“A jornada pela liberdade sempre esteve conosco”

Enquanto isso, esteja sempre atento às formas de melhorar a si mesmo e sua capacidade de se comunicar e persuadir. Nunca seja impaciente ou mau. Estabeleça a si mesmo a tarefa de ganhar o máximo de almas pela liberdade quanto possível, uma de cada vez. Nunca desista. Sorria, seja um guerreiro feliz, e não deixe que o outro lado o faça desanimar.

Andres, estudante de Guayaquil, Equador, e aluno da Foundation for Economic Education (FEE) em 2016, conduziu esta entrevista com o Sr. Reed em maio de 2017. O Instituto Ecuatoriano de Economia Política, do qual é associado, é dirigido por Dora de Ampuero, uma antiga colaboradora do FEE. Visite o IEEP no Facebook) e o site. O IEEP procura melhorar a compreensão dos equatorianos sobre a liberdade e o mercado livre. Andrés Cusme Franco escreve para o Instituto Equatoriano de Economia Política

 
 
 

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