OTAN publica novo Conceito Estratégico, Rússia e China evocam Guerra Fria

Por Renato Pernambucano

A OTAN (Organização do Tratado do Atlântico Norte), anunciou seu novo Conceito Estratégico, na quarta-feira, na cúpula da aliança militar, em Madri. O documento, que norteia as operações do grupo, sofreu alterações significativas desde sua versão anterior publicada em 2010. A Rússia, antes descrita como parceiro estratégico, agora é destacada como a ameaça mais significativa e direta à segurança dos integrantes da aliança e à paz e estabilidade na zona euro-atlântica, enquanto a China, sequer citada na versão anterior, foi descrita como um “desafio”.

Se lê no documento que  o Kremlin “busca estabelecer esferas de influência e controle direto por meio de coerção, subversão, agressão e anexação. Utiliza meios convencionais, cibernéticos e híbridos contra nós e nossos parceiros. Sua postura militar coercitiva, retórica e vontade comprovada de usar a força para perseguir seus objetivos políticos minam a ordem internacional baseada em regras”.

A Organização diz: “Nossa visão é clara: queremos viver em um mundo onde a soberania, a integridade territorial, os direitos humanos e o direito internacional são respeitados e onde cada país pode escolher seu próprio caminho, livre de agressão, coerção ou subversão. “.

O Conceito Estratégico acrescenta sobre Rússia e China: “O aprofundamento da parceria estratégica entre a República Popular da China e a Federação Russa e suas tentativas de reforço mutuamente de minar o pedido internacional baseado em regras, contraria nossos valores e interesses.”

A invasão russa à Ucrânia, e a postura de Pequim diante do conflito, são citadas como fatores para a mudança de abordagem no novo Conceito Estratégico. É dito ainda sobre o gigante asiático: “As ambições declaradas e políticas coercitivas da República Popular da China (RPC) desafiam nossos interesses, segurança e valores. A RPC emprega uma ampla gama de ferramentas políticas, econômicas e militares para aumentar sua presença global e projeto de poder…”.

OTAN

A  aliança militar surgiu durante a Guerra Fria como uma aliança defensiva entre países da Europa Ocidental, os EUA e o Canadá, visando dissuadir possíveis ataques soviéticos. O artigo 5º da fundação do grupo determina que um ataque a qualquer um dos países-membros equivale a um ataque a todos, ou seja, um ataque militar à Polônia, equivaleria a um ataque ao Reino Unido, os EUA e todos os outros integrantes da OTAN.  São 30 países-membros, com 12 fundadores e outros 18 entrando de 1955 até hoje. A presença de nações do leste da Europa na aliança é citada como preocupação de segurança pelo Kremlin, parte do motivo de desgaste entre a Organização e Moscou.

Países que pertenceram à União Soviética, ou ao bloco comunista, durante a Guerra Fria, hoje integram a OTAN. Entre eles: Letônia, Estônia, Lituânia, Polônia, Bulgária, Romênia e outros.  Sua entrada criou fronteiras terrestres entre membros da OTAN e a Rússia. A Suécia e a Finlândia, que possui uma fronteira de 1340 quilômetros com a Rússia, estão em processo de entrada na aliança. Saiba mais na reportagem de nossa mídia irmã, a NTD.

O novo Conceito Estratégico pontua as principais tarefas da OTAN como: a dissuasão e defesa da aliança militar, a prevenção e gestão de crises e a segurança cooperativa.

Rússia e China: parceria “visa superar os quadros da Guerra Fria”

O ministro das Relações Exteriores da Rússia, Sergei Lavrov (D), recebe seu colega chinês Wang Yi durante uma reunião em Sochi em 13 de maio de 2019 (foto Pavel Golovkin/AFP via Getty Images)

 

Em entrevista recente à rede russa NTV, Sergei Lavrov, ministro das Relações Exteriores da Rússia, citou a Guerra Fria e afirmou que o “Ocidente” estava promovendo sua própria agenda global.

“Estamos trabalhando com o Oriente”, disse Lavrov. “Como fazíamos no passado, estamos ampliando nossos contatos com ele [o Oriente], como antes. Esses contatos estão se expandindo em termos absolutos, e a Europa não é mais nossa prioridade, em termos relativos”.

Acrescentou: “O Ocidente quer perpetuar a liderança americana não apenas na Europa, mas também na Ásia-Pacífico (onde estão criando a AUKUS e o QUAD), conter a China e isolar a Rússia. É uma abordagem global”.

Xi Jinping, líder da China comunista, declarou em junho que houve um “empurrão” para aprofundar os laços em questões “relacionadas à soberania e segurança” entre os dois países.

Elliott Abrams, membro do think-tank americano Council on Foreign Relation, descreveu a aliança sino-russa como um desafio direto aos EUA e seus aliados, em artigo publicado em março:

“Considere a declaração conjunta de Putin e Xi Jinping feita em 4 de fevereiro: ‘Às novas relações interestatais entre Rússia e China são superiores às alianças políticas e militares da era da Guerra Fria. A amizade entre os dois estados não conhece limites, não há áreas ‘proibidas’ para a cooperação’…” 

Na declaração conjunta citada por Abrams, China e Rússia prometeram se opor às “tentativas de forças externas de comprometer a segurança e a estabilidade em suas regiões adjacentes comuns, com a intenção de contrariar a ingerência de forças externas nos assuntos internos de países soberanos sob qualquer pretexto”.

 

Victoria Kelly-Clark contribuiu para este artigo.

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