Os perigos da solidão

Por Gillian Leithman, Universidade Concordia

A independência é glorificada na cultura norte-americana como um símbolo de força. Como sociedade, valorizamos a realização individual e exaltamos a auto-suficiência.

Como especialista em envelhecimento e aposentadoria, ajudo a transição de funcionários do trabalho para a aposentadoria, facilitando seminários e oficinas no Canadá corporativo. Neste trabalho, muitas vezes me perguntei se a nossa atitude de “viver sozinho” nos levou a um caminho solitário e isolado.

Aqui estão algumas estatísticas recentes:

– O número de norte-americanos solitários duplicou desde a década de 1980, e 40% dos americanos não se sentem próximos aos outros em nenhum momento.

– 16% dos canadenses disseram faltar-lhes companheirismo em uma recente reunião da Associação Canadense de Aposentados (ACA).

– 15% dos entrevistados na pesquisa da ACA disseram que não tinham ninguém a quem se dirigir ou conversar.

– 15% dos entrevistados disseram que estavam infelizes fazendo coisas sozinhos.

De acordo com a pesquisa, a solidão reduz o tempo de vida duas vezes mais do que a obesidade. Sim, você leu certo.

O Dr. John Cacioppo, a autoridade mais importante do mundo no tema da solidão, sustenta que ter pessoas em sua vida não previne o sentimento de solidão. Pelo contrário, é o sentimento de ser solitário que coloca o cérebro e o corpo em risco.

Cacioppo relaciona o sentir-se solitário e a sensação de estar faminto. Nós comprometemos nossa sobrevivência e bem-estar quando um desses dois é ignorado.

Nós somos biologicamente programados para responder ao nosso ambiente. Quando experimentamos níveis baixos de açúcar no sangue, ansiamos por alimentos. A sensação de que nossos estômagos estão vazios é um sinal de alerta para comer, e é essencial para nossa própria sobrevivência. Da mesma forma, quando nos sentimos solitários, é um sinal de que precisamos de conexão com os outros.

Um cérebro solitário é inquieto

A solidão desencadeia a “hiper-vigilância”. Ou seja, seu cérebro está atento às ameaças sociais, o que, por conseguinte, nos coloca na defensiva. Nós nos tornamos mais reativos aos eventos negativos e percebemos os aborrecimentos diários como mais estressantes.

Um cérebro solitário desperta frequentemente, sofre de um sono fragmentado e não pode se recuperar dos eventos estressantes do dia. Também está sujeito a um aumento nos sintomas depressivos e tem dificuldade em se auto-regular. É por isso que você pode se sentir irritável e impulsivo. Um cérebro solitário também está em risco de declínio cognitivo e físico.

Um estudo holandês de três anos foi realizado com mais de 2 mil participantes de 65 a 86 anos. Embora nenhum dos participantes tivesse sinais de demência no início do estudo, os resultados revelaram que aqueles que relataram o sentimento de solidão tiveram um risco aumentado de 64% de desenvolver demência.

As pessoas também experimentam um aumento na solidão quando se aposentam do trabalho. É por isso que você quer se certificar de que você está se aposentando com um plano e que você tem amigos fora do seu local de trabalho.

Um corpo solitário

A solidão também afeta o corpo. A pesquisa do psicólogo Stephen Suomi indica que a solidão distorce a expressão de certos genes. Um experimento que separa os primatas recém-nascidos de suas mães durante seus primeiros quatro meses de vida resultou no desenvolvimento alterado de genes relacionados à imunidade que ajudam o corpo a combater vírus.

A pesquisa da psicóloga social Lisa Jaremka indica que as pessoas solitárias têm níveis mais altos de vírus ativados em seu sistema e correm maior risco de sofrer de inflamação crônica, que foi associada ao diabetes tipo 2,a artrite,  à doença cardíaca e até mesmo ao suicídio.

Enquanto a obesidade aumenta suas chances de morte precoce em 20%, a solidão aumenta suas chances em 45%, de acordo com pesquisas publicadas no Archives of Internal Medicine.

Então, o que devemos fazer com um estado emocional tão poderoso que pode alterar nossos cérebros, comprometer nossa fisiologia e encurtar nossa longevidade?

O antídoto para a solidão

Procure a conexão. Todos nós precisamos de uma tribo.

Se você se sente solitário, não negue e não aceite como inevitável.

Reconheça as consequências de uma solidão prolongada. Se você ignora a fome, você morre de fome. O mesmo se aplica à nossa necessidade de pertencer. Se você se sentir sozinho, conecte-se aos outros.

Reconheça que os relacionamentos de qualidade são os mais eficazes para alimentar esse vazio.

Estamos fisiologica e psicologicamente preparados para a conexão. Na próxima vez que você se sentir solitário, reconheça-o como um sinal de que precisa de conexão e busca de companheirismo. Seu corpo e seu cérebro agradecerão que você faça isso, e você pode até aumentar sua longevidade.

Gillian Leithman é professora assistente de habilidades profissionais para negócios e pesquisadora de envelhecimento e aposentadoria na Universidade Concordia, em Montreal. Este artigo foi publicado originalmente em The Conversation.

 
 
 

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