“Um olhar liberal-conservador sobre os dias atuais”: a lucidez de Catarina Rochamonte

Por Lucas Berlanza, Instituto Liberal

Minha caríssima amiga Catarina Rochamonte, doutora em Filosofia e também autora de diversos artigos para o Instituto Liberal, sabe de nossa significativa identificação em princípios e bandeiras. Um dos maiores destaques do liberalismo nordestino, ela já forneceu incontáveis demonstrações de seu peculiar espírito corajoso e combativo, ao mesmo tempo em que sereno e profundo.

Apesar de já conhecê-la bem e ter lido em fragmentos anteriormente alguns dos textos que o compõem, seu pequeno novo livro, Um olhar liberal-conservador sobre os dias atuais: Ensaios Políticos e Morais, lançamento da editora Chiado, não deixa de ser uma das maiores surpresas que me chegaram às mãos até o momento. Permitindo uma visão panorâmica do estado atual das ideias de Catarina como pensadora e militante política – sem qualquer tom depreciativo nesta última expressão —, o conjunto da obra tem uma capacidade ímpar de sincronizar apreciações históricas e culturais da mais elevada profundidade filosófica com as questões mais imediatas do debate público contemporâneo.

Em seu trabalho realmente imperdível, Catarina procura fazer o mesmo que sempre tenho defendido: promover um casamento entre os “pontos de vista defendidos tradicionalmente pelo liberalismo, como livre-comércio e livre iniciativa” e o individualismo em sua justa dimensão com “uma grande preocupação em reavaliar todo o quadro cultural da nação e o interesse em defender efetivamente os valores basilares da civilização”, aproximando o conservadorismo e o liberalismo como aliados teóricos em uma luta contra “a ideologia cujas pretensões autoritárias fecham as portas ao diálogo que poderia conduzir a política a novos patamares e a sociedade a novas ideias”.

Abraçando o liberalismo do ponto de vista institucional e econômico, desfraldando a liberdade dos indivíduos, de sua intimidade e suas escolhas, mas ao mesmo tempo evocando do conservadorismo a temperança e a valorização dos alicerces culturais legados pelos séculos – alguns dos quais indispensáveis para sedimentar essa mesma liberdade, e Catarina cita liberais icônicos como Hayek a fazer a mesma afirmação -, o “olhar liberal-conservador” de Catarina não rechaça a democracia. Evoca, no entanto, as aspirações da democracia ateniense de ver nesse regime “um governo regido, limitado e questionado pela lei”, sendo a lei “o ideal mais próximo daquilo que se pôde conceber como justiça”.

Diante disso, promovendo uma articulação entre esses nobres alicerces culturais da Antiguidade clássica, mesclados às raízes judaico-cristãs, e o liberalismo de John Locke, Catarina é confessadamente uma iluminista, avessa aos tradicionalismos antiliberais, aos reacionarismos estatizantes e às nostalgias inférteis. Iluminista, porém, sem os cacoetes radicais e destrutivos de certos braços do Iluminismo que desembocaram em um racionalismo paradoxalmente irracional, pronto a destruir sem ter outra coisa sobre que edificar que não o autoritarismo de seus autoproclamados vanguardistas iluminados.

Com base nessas premissas, ela se põe a apreciar os maiores problemas globais da atualidade, sem a afobação dos extremistas que se creem detentores das respostas fáceis, mas com a ponderação de quem tem a consciência da importância de cultivar um imenso legado civilizacional. Catarina tem a certeza, que compartilho, de que não há como pretender a proteção desse legado negando os melhores valores que ele originou.

Assim, por exemplo, ao abordar o problema das crises migratórias, ela levanta com razão os perigos dos choques culturais e do fundamentalismo islâmico, mas entende na recepção de refugiados de guerra um desafio complexo em que precisamos ponderar, de um lado, a defesa daquilo que nos torna o que somos, sem o que o obscurantismo e o autoritarismo de um paradigma diferente do nosso ameaça nosso patrimônio, e, de outro lado, a necessidade de não simplesmente cerrarmos as portas à dor alheia, o que na mesma medida nos faria negar o que temos de melhor.

Catarina não nega o valor da identidade nacional, mas ressalva, acima dela, “a identidade de sentido de um progresso intelectual e moral que nos une, a nós ocidentais, desde a Grécia Antiga”, e que nos cabe louvar e sustentar contra as perversões das instituições supranacionais que concedem espaço a agendas antiocidentais, inclusive a própria ONU, que, como aponta nossa autora, dá grande espaço em suas votações, que deveriam visar à paz e à liberdade, aos países autoritários do mundo islâmico; contra a ideologia de gênero, o aborto e a doutrinação praticada no espaço de ensino, uma de suas maiores preocupações como acadêmica, todos esses tópicos sendo abordados extensamente nos ensaios do livro.

A restauração do Ocidente e de suas melhores fontes como ferramentas essenciais de diálogo com os problemas modernos é a pretensão fundamental do livro, sensivelmente perceptível em todas as suas páginas. Catarina entende que “a modernidade contaminou-se com uma visão gregária e coletivista desde que seus próceres acadêmicos resolveram articular pretensões ideológicas e reflexões filosóficas”, enquanto os filósofos gregos, “no auge do seu vigor espiritual e político, puderam realinhar dois pólos efetivamente díspares, quais sejam, a comunidade e a individualidade e, somente sob a tensão dessa dicotomia, sem a qual sucumbiria ou a vida social ou a autonomia individual, puderam soerguer o patrimônio imemorial de nossa civilização”.

Todo o seu trabalho pretende enaltecer o liberalismo, mas enfatizar a verdade de que ele é um resultado moderno de um construto dos séculos, harmonizando as balizas da nossa civilização em sua melhor conformação. Não existiria e não existe, portanto, sem as fontes luminosas dessa cultura, e os que lutam por sua manutenção e efetivação devem também lutar por ela.

Do conservadorismo, Catarina engrandece a “necessidade de reavivar compromissos com o que nos foi legado tradicionalmente, isto é, com instituições e valores cujo respeito fomentou o progresso e cuja negação poderia conduzir não ao que se propagandeia, mas ao abalo sistemático da República, da sociedade e da economia”. O que quer não é o retrocesso ou a intolerância, mas a garantia de “certas instâncias teóricas e funcionais sem as quais o homem perde o rumo tracejado pela civilização em séculos de esforço teórico e prático”, pois “o progresso que se almeja não poderá jamais advir da simples rebeldia em torno do sólido e do cultural, mas sim da constância naquilo que se consolidou como profícuo para o bem estar das pessoas e para a liberdade das nações”. Sua perspectiva sabiamente se assenta na consciência de que não há verdadeiro progresso destruindo todo o trabalho que até então foi desenvolvido.

Esses valores e os alicerces dessa civilização estariam sofrendo, ainda neste século XXI, investidas intelectuais, por parte do Marxismo, do Marcusianismo, da Escola de Frankfurt e de “todos os niilismos pós-modernos e todas as vertentes estruturalistas que visam a reduzir o homem a mero apanhado de circuitos linguísticos”; investidas políticas, por parte dos políticos e ativistas socialistas e das máquinas públicas do populismo; e investidas religiosas, provenientes de um segmento religioso que massivamente se associa a uma ampla concepção política, o Islamismo. São esses os adversários e problemas com os quais Catarina se defronta em seu trabalho, procurando situar sua perspectiva liberal conservadora em oposição a eles.

O livro de Catarina é um pequeno petardo de brilhantismo e lucidez, uma contribuição à produtividade do liberalismo brasileiro cujo valor não se mede facilmente pelas suas reduzidas dimensões materiais. Sua obra não se limita a apontamentos superficiais, mas delineia o pano de fundo histórico e cultural que nos trouxe até aqui e justifica nosso desejo de seguir em frente, caminhando sobre o edifício dos que laboraram antes de nós.

O melhor combatente será aquele que compreender o valor daquilo por que luta e é por isso que acredito firmemente que todos deveríamos ler esse trabalho ímpar, bem-sucedido na proposta de sintetizar o profundo, dar conta de um cabedal de conhecimentos que não poderiam ser mais abrangentes com simplicidade e didatismo, sem incorrer no aborrecimento e no enfado. Li o livro de um fôlego só. Permito que a autora encerre este convite à sua leitura com um dos trechos que melhor representam o seu pensamento:

“Precisamos nos precaver para que essa revolta contra a história da civilização ocidental que se verifica na linhagem de pensadores marxistas não se imponha à ingenuidade de uma juventude que mal conhece os seus antepassados culturais, impedindo-a assim de valorizar a longa história da espiritualidade humana cujo ponto de culminância nem sequer chegou a ser ainda vislumbrado por aqueles que querem ver no ideal da nossa civilização apenas um fantasma ideológico de metafísicas vãs ou na história social apenas lutas entre grupos, negando-se a enxergar o dinamismo próprio de uma ideia que, na sua passagem, deixou atrás de si as construções morais e intelectuais que nos distinguiram como uma civilização livre e autônoma, como uma democracia ainda em germe – se por democracia entendermos a liberdade que, irmanando-se à igualdade, procura levar adiante o ideal de fraternidade universal que o Cristianismo difundiu”.

Lucas Berlanza é jornalista formado pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), carioca, editor dos sites “Sentinela Lacerdista” e “Boletim da Liberdade” e autor do livro “Guia Bibliográfico da Nova Direita – 39 livros para compreender o fenômeno brasileiro”

O conteúdo desta matéria é de responsabilidade do autor e não reflete necessariamente a opinião do Epoch Times

 
 
 

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