“Casa do Terror” guarda memória viva dos expurgos stalinistas na Geórgia

Por Misha Vignanski, Agência EFE

Muitos georgianos conhecedores da história de Tbilisi não conseguem deixar de sentir um leve calafrio quando passam perto de um velho edifício situado no centro da cidade, lar atualmente de 40 famílias e cujo passado gela o sangue.

O número 22 da rua Pavle Ingorokva foi durante mais de uma década um centro de tortura e fuzilamento nos tempos da ditadura bolchevique de Josef Stalin, um georgiano que castigou com dureza feroz seu próprio povo.

Nesses fatídicos anos, a rua se chamava Felix Dzerzhinsky, em homenagem ao fundador da Cheka, a polícia política do regime soviético.

A localização do imóvel não poderia ser mais apropriada para receber a “Casa do Terror”, como os georgianos chegaram a chamar abertamente o prédio tempos depois, quando a União Soviética já não se sustentava nos seus alicerces.

No edifício, que outrora insuflava pavor e que os transeuntes tentavam evitar, agora vivem dezenas de pessoas, algumas das quais não conhecem ou procuram não pensar nas atrocidades que foram cometidas no local nas décadas de 1920 e 1930.

“Tentamos não pensar no que estas paredes viram. Vivemos no presente”, disse à Agência Efe Marina, que há cinco anos aluga um apartamento no número 22 da Pavle Ingorokva junto com o marido e seus dois filhos, e que prefere não se aprofundar em um tema que, para ela, embora trágico, pertence ao passado.

No primeiro andar da “Casa do Terror” são ouvidas vozes infantis e há brinquedos espalhados pelo chão.

Ofelia Arutyunyan — “Ofelia bebo” (“vó Ofelia”, em georgiano) como é conhecida — é a inquilina mais velha do edifício.

“Antes tinha uma grande família e agora tenho ficado sozinha”, afirmou a idosa, de 82 anos.

Ofelia lembra que se mudou para o edifício em 1954, pouco depois de se casar.

“Eu tinha 18 anos. Vim para viver aqui com o meu marido. Estávamos recém-casados”, contou.

O apartamento tinha sido atribuído pelas autoridades à família do seu marido e naqueles tempos era mais do que temerário rejeitar um imóvel oferecido pelo Estado.

“Não falávamos do que tinha acontecido no edifício, era um tabu, apesar de Stalin já ter morrido”, lembrou Ofelia.

Os inquilinos da “Casa do Terror” tentam levar uma vida normal, mas políticos e analistas consideram que é necessário dar um status especial ao imóvel.

“Este edifício deve se transformar em um símbolo do terror e das repressões durante a União Soviética”, declarou a deputada georgiana Elena Joshtaria, que já enviou a respectiva solicitação à Câmara Municipal de Tbilisi.

Segundo Elena, entre 1921 e 1953, ano da morte de Stalin, em toda a Geórgia foram executadas cerca de 20 mil pessoas, e o lugar onde era decidido o destino de muitas dessas vítimas “há de se transformar em um símbolo de Tbilisi, triste e trágico, mas um símbolo”.

Situada no coração da cidade, a “Casa do Terror”, construída no final do século XIX, é um imóvel “intocável”, lembram as autoridades.

“O imóvel se encontra no centro histórico de Tbilisi e não pode ser destruído”, explicou à Efe um porta-voz da Câmara Municipal.

Quanto à possível criação de um museu, as autoridades não dispõem agora dos recursos necessários para implementar essa iniciativa, segundo admitiu a fonte.

Além disso, o porta-voz apontou que “muitos de seus moradores não querem se mudar para outro lugar e deixar o centro da cidade”.

Por tudo isso, a Câmara Municipal se limitará por enquanto a “renovar a fachada e as comunicações” do imóvel.

As repressões stalinistas na Geórgia são um dos temas investigados pelo Laboratório de Estudo do Passado Soviético, uma ONG fundada pelo historiador Irakli Jvadaguiani.

“O edifício da rua Ingorokva é um dos principais lugares que melhor encarna toda a amargura daquela época”, considerou Jvadaguiani.

Na opinião do historiador, o imóvel realmente precisa de “mais atenção das autoridades” e, embora não chegue a ser um museu, “é preciso fazer com que os georgianos saibam mais sobre as páginas negras da sua história”.

Logo após o fim da União Soviética, a rua onde se encontra a “Casa do Terror” passou a ter o nome de Pavle Ingorokva, um ferrenho adversário da sovietização da Geórgia.

 
 
 

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