Belíssima história de Cipião presente na obra de Rafael

Alguns dos trabalhos posteriores de Rafael se destacam em suas composições requintadas, uso da cor e grau incomparável de equilíbrio espacial.

Para mim, o trabalho de Rafael sempre traz de volta uma memória de infância, quando meu pai me levou à oficina de um relojoeiro, onde me mostraram as entranhas de um relógio suíço. Ele me explicou sua função e funcionamento interno, mas a visão do design era tão atraente que sua explicação simplesmente não me alcançou.

Eu só podia olhar em silêncio. Eu sentia como se olhasse tanto para um organismo quanto para uma máquina.

A mesma combinação fascinante de precisão matemática e design orgânico tornam as palavras supérfluas, especialmente quando confrontadas com o trabalho mais maduro de Rafael.

A fim de discutir o trabalho de Rafael, tenho de recorrer a uma de suas peças anteriores que data de 1504, quando ele tinha apenas 21 anos. Este painel popular foi chamado de “O Sonho de Cipião”, “A visão de um cavaleiro” ou “Uma alegoria”.

Como visões normalmente são retratadas com seus protagonistas acordados, é seguro assumir que a cena aqui não é uma visão. Muito provavelmente, o protagonista que dorme é o general romano Publius Cornelius Scipio.

Entre aspas: “Uma combinação fascinante de precisão matemática e design orgânico fazem as palavras supérfluas, especialmente quando confrontada com o trabalho mais maduro de Rafael”.

O sonho em que as realizações mundanas de Cipião foram preditas não tem base histórica conhecida, exceto ser uma parte da obra semificcional “De Re Publica” de Cícero, escrita mais de cem anos após a morte de Cipião.

Já podemos ver a parcialidade do jovem Rafael por composições excepcionalmente equilibradas e maravilhoso uso de cores. Aqui, ele descreve o jovem militar romano cochilando embaixo de uma árvore de louro, o símbolo de seu sucesso posterior.

Cipião é abordado por duas mulheres. A mais severa apresenta-o com uma espada e um livro; a mais graciosa apresenta-lhe uma flor. Estes três atributos significam “os três poderes na alma do homem: força, inteligência e sensibilidade”, como podemos ler no maravilhoso livro “Mistérios pagãos no Renascimento” de Edgar Wind.

Embora essas características constituam os requisitos de qualquer cavaleiro, elas também se aplicam a Cipião. Além de ser um gênio estrategista famoso que ocupou a Espanha e derrotou Aníbal, o Grande; Cipião era também um homem de grande cultura, um orador gracioso e reverenciado por seu senso de justiça franca.

Por meio de suas palavras e comportamento, Cipião inspirou grande parte da elite romana a se interessar pela cultura grega antiga, seus costumes e grandes filósofos, como Platão, Aristóteles e Sócrates.

Um sacerdote do templo de Marte, Cipião também era um homem profundamente espiritual. Lívio escreveu que muitos acreditavam que Cipião era um favorito do céu e, mais tarde na vida, ele teria possuído o que era então chamado de “segunda visão”.

Ele teria sonhos em que via o futuro, um feito racionalizado pelo historiador grego Políbio como o mero resultado de um bom planejamento, pensamento racional e inteligência.

Por trás dos personagens da pintura há duas paisagens distintas: em cima, uma estrada sinuosa num terreno árido e pedregoso, uma alegoria das dificuldades inerentes em perseguições militares e intelectuais; a outra paisagem é pastoral.

Cipião tem sua cabeça voltada em direção à senhora severa, sugerindo que suas buscas militares e intelectuais predominam sobre as de uma vida caseira.

Ele era conhecido por ter um casamento feliz e frutífero e foi – especialmente em seus últimos anos – elogiado por sua continência e clemência. Por isso, é bastante apropriado para Rafael retratar o jovem Cipião recebendo os dons de força, inteligência e sensibilidade.

No entanto, apesar (ou talvez por causa) de suas conquistas militares, franqueza e popularidade, sua vida mais tarde foi atormentada pela inveja de inimigos políticos, o que o levou a deixar Roma de uma vez por todas.

Wim Van Aalst tem mestrado em publicidade e design gráfico e é pintor autodidata que ensina técnicas tradicionais de pintura a óleo

 
 
 

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