As memórias de Lev Kopelev: de marxista entusiasta a estudioso exilado

Por Victoria Kulikova

O russo Lev Kopelev, um comunista desiludido, era uma espécie de lenda na Alemanha, onde foi convidado a dar palestras em muitas universidades. Mas em sua terra natal ele foi vítima de várias campanhas políticas soviéticas, mais tarde ele foi denunciado como traidor e esquecido.

Lev Zinovyevich Kopelev nasceu em 9 de abril de 1912 em uma família judia que vivia em Kiev, então parte do Império Russo. Em sua juventude, Kopelev foi um ideólogo comunista. Vários anos depois, a revolução de 1917 de fato levou o comunismo ao poder na Rússia.

Mas em 1929, quando o ditador soviético Joseph Stalin atacou seus inimigos reais e imaginários, Kopelev viu-se no bloco político. Ele foi preso pela primeira vez em 1929 por “associação com a oposição bukharinista e trotskista”, isto é, por supostamente seguir as ideias dos rivais de Stalin no Partido Comunista. Kopelev foi solto depois de dez dias, mas isso foi apenas o começo.

Em 1932, Kopelev trabalhou como correspondente de notícias quando testemunhou a fome do Holodomor na Ucrânia, causada pela coletivização forçada de Stalin. Como um comunista dedicado, ele seguiu as duras medidas soviéticas contra os chamados “kulaks”,—camponeses ricos considerados parte da classe capitalista inimiga. Entre cinco e 10 milhões de pessoas morreram de fome.

‘Humanismo burguês’

Quando a guerra com a Alemanha nazista estourou em 1941, Lev Kopelev se ofereceu para se alistar no Exército Vermelho. Ele usou seu excelente conhecimento de alemão, que aprendeu quando criança e usava em seus trabalhos universitários, para servir como tradutor e oficial de propaganda, ganhando várias medalhas.

Ele mesmo um judeu, Kopelev conhecia bem os crimes dos nazistas. Seu irmão morreu em combate. Depois de capturar Kiev, as tropas alemãs massacraram dois de seus avós, uma tia e um tio junto com 30.000 outras pessoas que foram presas e levadas para a ravina Babi Yar antes de serem baleadas e enterradas.

Ao mesmo tempo, o assunto dos crimes de guerra soviéticos, incluindo pilhagem, assassinato em massa e estupro de pessoas inocentes, era totalmente proibido no discurso comunista. Ainda hoje, é uma fonte de controvérsia entre alguns russos que vêem a discussão das atrocidades do tempo de guerra como uma tentativa de manchar a bravura dos soldados soviéticos na Segunda Guerra Mundial.

Kopelev não via as coisas dessa maneira e condenou em termos inequívocos a lógica do olho por olho que alguns de seus compatriotas usaram para justificar o tratamento soviético de suas conquistas no final da guerra.

“Você não pode condenar uma nação ou classe inteira consistindo de milhões de pessoas pelos crimes de várias centenas ou vários milhares”, disse Kopelev em uma de suas últimas entrevistas.

Essa atitude não era bem-vinda entre a liderança soviética. Em 1945, tentando proteger os civis alemães dos caprichos das forças de ocupação, Kopelev foi preso e condenado a 10 anos de prisão. Seu crime foi espalhar “propaganda humanista burguesa” e mostrar “compaixão para com o inimigo”.

Na prisão, Kopelev conheceu um oficial militar que foi preso por criticar Stalin em uma carta particular. Décadas depois, esse homem, Aleksandr Solzhenitsyn, se tornaria famoso mundialmente por seu “Arquipélago Gulag” e outras obras. Lev Kopelev se tornou a base para Rubin, um personagem do romance de Solzhenitsyn “O Primeiro Círculo”.

“No passado, eu achava que meu destino era muito infeliz e cruelmente imerecido”, escreveu Kopelev. “Agora percebo que na realidade foi feliz e totalmente merecido. Eu merecia esse destino porque realmente deveria ser punido. Eu obediente e fervorosamente participei de crimes por tantos anos: roubei camponeses, servilmente glorifiquei Stalin, menti, ensinei as pessoas a acreditarem em mentiras e adorei vilões. Mas meu destino era feliz porque os anos passados na prisão me pouparam de participar de novos delitos e mentiras”.

Descomunização

Kopelev foi libertado da prisão em 1954. Como o ditador Joseph Stalin estava morto e a nova liderança soviética criticou alguns de seus crimes, Kopelev permaneceu fiel ao comunismo. Ele foi autorizado a ingressar novamente no Partido Comunista Soviético e continuou seu trabalho na literatura e tradução alemãs.

Condenar Stalin não trouxe nenhuma mudança fundamental no regime comunista da União Soviética. Em 1968, o governo comunista da Tchecoslováquia, controlado pelos soviéticos, tentou introduzir reformas políticas, levando à invasão do país pela União Soviética e seus aliados.

Lev Kopelev, escritor e dissidente russo, em uma leitura em Bad Münstereifel, Alemanha, em 4 de abril de 2012 (Elke Wetzig/Domínio Pùblico)
Lev Kopelev, escritor e dissidente russo, em uma leitura em Bad Münstereifel, Alemanha, em 4 de abril de 2012 (Elke Wetzig/Domínio Pùblico)

Muitos dissidentes soviéticos protestaram contra esta ação, incluindo Kopelev. Ele foi expulso do Partido Comunista por sua franqueza. Em uma reunião do Sindicato dos Escritores, Kopelev cruzou os limites ao comparar Stalin a Hitler. Em 1977, todos os seus escritos foram proibidos e ele foi destituído de seus direitos de ensino.

E durante uma viagem de estudos de um ano à Alemanha Ocidental com sua esposa Raisa Orlova, o governo soviético revogou a cidadania de Kopelev.

Pode ter sido para o melhor, já que Kopelev se tornou professor e fez um bom trabalho para promover o intercâmbio cultural russo-alemão e a história. Junto com o ganhador do Prêmio Nobel de 1972 Heinrich Böll, ele escreveu a obra “Why Do We Shoot at Each Other?”

Kopelev frequentemente dava entrevistas e dava palestras. Um de seus livros, “Holy Doctor Fyodor Petrovich”, foi dedicado a Friedrich Joseph Haase (1780-1853), um médico alemão que trabalhou abnegadamente para reformar e civilizar o sistema prisional da Rússia Imperial.

Em 1989, quando a União Soviética iniciou suas reformas políticas finais, a cidadania de Kopelev foi restaurada e ele visitou sua terra natal pela última vez. A transição democrática que viu não o convenceu, por isso voltou para Colônia, onde morreu em 1997.

Estima-se que o comunismo tenha matado cerca de 100 milhões de pessoas, mas seus crimes não foram totalmente compilados e sua ideologia ainda persiste. O Epoch Times procura expor a história e as crenças deste movimento, que tem sido uma fonte de tirania e destruição desde o seu surgimento. Leia toda a série aqui.

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